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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Carta de Demissão

Venho por meio desta, apresentar oficialmente meu pedido de demissão da categoria dos adultos. Resolvi que quero voltar a ter as responsabilidades e as ideias de uma criança de oito anos, no máximo.
Quero acreditar que o mundo é justo, e que todas as pessoas são honestas e boas, e acreditar que tudo é possivel.
Quero que as complexidades da vida passem despercebidas por mim, e quero ficar encantado com as pequena maravilhas deste mundo.
Quero de volta uma vida sem complicações. Estou cansado de dias cheios de computadores que falham, mintanhas de papelada, noticias deprimentes, contas a pagar, fofocas, doenças e necessidade de atribuir um valor monetario a tudo que existe.
Não quero mais ter que inventar jeitos para fazer o dinheiro chegar até o dia do proximo pagamento.
Não quero mais ser obrigado a dizer adeus as pessoas queridas, e, com elas, a uma parte de minha vida.
Quero ter certeza de que Deus está no céu, e de que, por isso, tudo está direitinho neste mundo.
Quero ir ao MCDonalds ou à pizzaria da esquina, e achar que é melhor que um restaurante 5 estrelas.
Quero viajar ao redor do mundo num brinquedinho de papel, navegando por uma poça deixada pela chuva.
Quero jogar pedrinhas na agua e ter tempo para olhar as ondas que elas formam.
Quero achar que as moedas de chocolate são melhores do que as de verdade, porque podemos comê-las e ficar com a cara toda lambuzada.
Quero ficar feliz quando amadurece o primeiro caju ou a primeira manga, qunado a jabuticabeira fica pretinha de fruta.
Quero poder passar as tardes de verão à sombra de uma arvore, construindo castelos no ar e dividindo-os com meus amigos.
Quero voltar a achar que chicletes e picoles são as melhores coisas da vida.
Quero que as maiores conpetições que eu tenha que entrar seja um jogo de gude ou uma pelada.
Eu quero voltar ao tempo em que tudo o que eu sabia era o nome das cores, a tabuada, as cantigas de roda, a "Batatinha quando nasce", e o "Pai Nosso", e isso não me encomodava nadinha, por que eu não tinha a menor ideia de quantas coisas eu ainda não sabia.
Voltar ao tempo em que se é feliz, simplesmente porque se vive na bendita ignorância da existencia de coisas que podem nos preucupar e aborrecer.
Eu quero acreditar no poder dos sorrissos, dos abraços, dos agrados, das palavras gentis, da verdade, da justiça, da paz, dos sonhos, da imaginação, dos castelos no ar e na areia. E o que é mais: quero estar convencido de que tudo isso vale muito mais que o dinheiro.
Por isso, tomem aqui as chaves do carro, a lista do supermercado, as receitas do médico, o talão de cheques, os cartões de credito, o contracheque, os crachás de identificação, o pacotão de contas a pagar, a declaração de renda, a declaração de bens, as senhas do meu computador e das contas no banco, para que resolvam as coisas do jeito que quiserem.
Apartir de hoje, isso é com vocês, por que eu estou me demitindo da vida de adulto.

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[ FAZER O BEM VALE A PENA , EDITORA: THEUS]
[ AUTOR : NEREU JORGE ARALDI 5ª EDIÇÃO ]

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